domingo, 25 de outubro de 2009

Cinderela é a nova paixão nacional!


Um curso de iniciação teatral com Carlos Gomes do Espírito Santo, no Centro de Cultura e Arte da Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso), em 1984. Isso foi o suficiente para o ator e diretor pernambucano Jeison Wallace encontrar o caminho profissional. O intérprete da personagem Cinderela, há 18 anos, traz consigo uma veia cômica, um gestual tipicamente pernambucano e um suingue adquirido no subúrbio de Afogados, local onde cresceu.

A gata borralheira mais animada do Estado estreou na TV Jornal em 2004. Inicialmente, com uma participação de 15 minutos no programa Muito mais apresentado, na época, por Beto Café. Desde então, caiu no gosto popular, passando a ser um programa diário de 30 minutos chamado de Papeiro da Cinderela.

No programa, quadros satirizam apresentadores da própria emissora como, por exemplo, o chef Wellington, do Sabor da gente, com o personagem chef Ureiéllington, no Que djilícia, e a Engraçadinha Araújo, uma homenagem ao talento da âncora do TV Jornal meio dia, Graça Araújo. O PQP (Pense o que pensar) é outro quadro de sucesso do Papeiro, como Cantando no chuveiro, Banho real, Pegadinha da Cinderela, Escolinha da Cinderela e o Tá valendo.

“Acredito que fomos conseguindo espaço por causa do trabalho, que é feito com os pés no chão”, destaca Jeison Wallace. Para o ator, o sucesso se dá por ele falar a linguagem do povo. “Nós atores somos observadores natos, guardamos na memória e incorporamos. Sempre as pessoas me param na rua e falam que tem uma filha que diz ‘Oxe! Mainha’ ou que a Cinderela é a cara de alguma empregada delas. Isso é o bacana do trabalho, pois a identificação é real”, comenta. Sobre a criação da personagem, Jeison ressalta que basta olhar os trejeitos dos pernambucanos: “Temos muitas manias que ficam engraçadas”.

Com o sucesso e a identificação do público, Cinderela anuncia produtos de consumo para a dona de casa, emprestando a marca consagrada dela para lã de aço, feijão, produtos de limpeza, ovo de páscoa e outros.
As frases e os bordões de Cinderela são repetidos até por crianças. Um dos dele, o “bate peitinho”, virou hit e mania no programa Pânico na TV e ganhou as ruas do Brasil em pouco tempo. A dupla Silvio e Vesgo não identificou a autoria da expressão, o que causou certa polêmica. “Quando a brincadeira surgiu, eles colocaram os créditos, mas, de uma hora para outra, desvincularam o bordão”, lembra Jeison.


Essa polêmica fez com que a apresentadora Eliana o chamasse para participar do novo programa dela no SBT. “Fui apresentado a Eliana na época que ela vinha ao Recife e milhares de crianças acompanhavam o trio elétrico que comandava em Boa Viagem. Cantei junto e depois ela foi assistir a minha peça, que estava em cartaz. Com toda essa história do ‘bate peitinho’ vindo à tona, ela quis que eu fizesse parte do programa”, diz o ator.

A identificação com a personagem também foi grande no Brasil. Cinderela agradou tanto que, na primeira participação, em 06 de setembro, o programa Eliana liderou a audiência por quase uma hora e a personagem participa da revista eletrônica desde então. “A produção fez algumas pesquisas sobre humoristas e chegamos ao nome de Jeison Wallace”, pontua o diretor do programa, Marcio Lima. Ele comenta, também, que Cinderela possui um humor irreverente e as crianças gostam, por este motivo a personagem faz parte do quadro Criança show. “O casamento foi perfeito: Jeison é um ótimo ator, um comediante muito bom e tem sacadas muito rápidas. A resposta no Ibope, em São Paulo, foi tão rápida que decidimos exibir outros quadros do programa de Cinderela, como o Tá valendo.” Segundo Jeison Wallace, o Tá valendo é um sucesso por causa da participação direta do povo. “Não sabemos do que as pessoas são capazes de fazer por R$ 10. O quadro mostra exatamente isso. Constatamos, com a gravação em São Paulo, que não só os pernambucanos topam a brincadeira, mas os brasileiros de uma forma geral”, diz.

A diretora geral do Eliana, Leonor Correa, salienta que o humor é fundamental em programas de auditório, principalmente no domingo, já que todos querem se divertir. “O humor nordestino tem características próprias, um pouco circense, sempre pra cima, sem ofender, sempre com alegria para todas as idades. O grande diferencial está em quem faz a Cinderela, Jeison Wallace, além de grande profissional, é humilde e super dedicado”, enfatiza. Ela lembra, também, que São Paulo é feita de muitos nordestinos e todos querem matar saudades do sotaque e da terrinha.

O sucesso da participação da personagem é tão grande que a produção do Eliana se deslocou de São Paulo para gravar quadros no Recife. A equipe do SBT filmou cenas na praia de Boa Viagem e no VII Festival Nacional do Bode, no município de Sertânia. Os quadros gravados em Sertânia vão ao ar hoje. “Nosso plano é que ela (Cinderela) continue com a gente sempre, começou junto e com pé direito. Que a sorte de um faça bem ao outro, porque competência, talento, profissionalismo e dedicação, Jeison Wallace tem de sobra”, afirma Leonor Correa.

Para manter o sucesso e conquistar voos cada vez mais altos, o ator pernambucano diz que é preciso amadurecimento. “São 25 anos de carreira com trabalho árduo e o reconhecimento surgiu por causa das sementes que plantei. Agora é a hora de colher os frutos”, finaliza.O bordão ‘PEITINHO’ é meu”, diz Cinderela.

Conhecido em todo o Nordeste por sua irreverência e criatividade, Jeison Wallace, que vive a personagem Cinderela no programa “Papeiro da Cinderela”, da TV Jornal/SBT Pernambuco, reivindica para si a autoria do bordão “peitinho”, divulgado nacionalmente pela dupla Silvio e Vesgo no programa “Pânico na TV!”.

Em entrevista, Jeison Wallace repetiu o velho ditado “na TV nada se cria, tudo se copia” e garante: “Meu objetivo não é processar o Pânico muito menos brigar com os humoristas“. O comediante quer apenas deixar claro que o bordão “Peitinho” é usado por ele há mais de 5 anos em Pernambuco. “O Nordeste todo já conhecia”, diz Jeison Wallace. O bordão “Peitinho” foi lançado nacionalmente pelo “Pânico na TV” e ganhou as ruas do Brasil em pouco tempo.

Rodrigo Scarpa, o repórter Vesgo do programa, disse ao jornal O Dia que a ideia teria partido de “uma pessoa” que pregou a peça neles em uma cobertura no Nordeste. A pessoa a qual o repórter Vesgo se refere é Cinderela, e o evento em questão é o Baile dos Artistas de Recife. “Meus fãs pedem para eu processar, mas esse não é o meu objetivo. Esse tipo de atitude é baixo demais“, completou. E mais: “Quando Vesgo e Silvio começaram a usar o bordão, eles colocavam uma imagem de Cinderela, creditando a brincadeira. De uma hora para outra a imagem foi desvinculada”,  disse Jeison Wallace.

No mês de maio o jornal Extra publicou matéria acusando a dupla Vesgo e Sílvio de plágio. A publicação disse que a brincadeira é uma imitação, de fato, e que o repórter Vesgo copiou. bordão é um fenômeno nacional. Já virou funk e remixagens no YouTube. Ceará, que interpreta Silvio Santos no Pânico, comentou o caso: “Quando fomos a Recife para realizar a cobertura do Baile dos Artistas, Cinderela fez essa brincadeira conosco [Vesgo e Silvio] e nós passamos para frente aqui em São Paulo. Mas confirmo que o bordão é ideia da Cinderela“.

Cinderela é um fenômeno de público no Nordeste há mais de 18 anos. Ela traz para uma casa de espetáculos pessoas que nunca tiveram a oportunidade de entrar num teatro.

Cinderela alçou voos muito maiores, pois além de suas peças vistas e comentadas por milhares de espectadores em todo Brasil, já virou diversas teses de mestrado, virou biografia de livro, e há 5 anos ganhou seu próprio programa de televisão na TV Jornal (SBT) de Pernambuco, onde diariamente na hora do almoço é vice líder no horário chegando a ser primeiro lugar na audiência. Virou CDs de sucesso, produtos de consumo pra dona de casa – emprestando sua marca consagrada em lã de aço, feijão, produtos de limpeza, ovo de páscoa e outros.

Foi destaque no Domingo Legal do Gugu e apresentou vários links ao vivo direto para o Teleton (SBT) em 2008. As suas frases e bordões são repetidos até por crianças muito pequenas. Um dos bordões criados por Cinderela, o “bate peitinho”, virou hit e mania em 2009 no programa Pânico na TV. Vários espetáculos fazem parte da lista de sucessos de Jeison Wallace, tanto atuando, como escrevendo e dirigindo. O principal deles foi “Cinderela – A Estória que sua mãe não contou”, que permaneceu 9 anos em cartaz.

Fonte: JC on line

sábado, 24 de outubro de 2009

Arte de um pernambucano de sucesso!


Colorida, vibrante, alegre e sem limites, a arte pop de Romero Britto surpreende em lugares insuspeitos de Miami, e sua mais recente criação está a ponto de se espalhar pelas ruas de toda a cidade.

Com seu estilo característico, o artista brasileiro pintou uma série de parquímetros, cujo dinheiro que arrecadar será destinado às pessoas que vivem nas ruas.

Além disso, Romero Britto pretende inaugurar em menos de 3 anos uma das maiores instalações de arte do mundo, quando terminar de pintar um mural ao longo das paredes externas do monumental estádio de futebol americano dos Miami Dolphins.

Para este artista de 46 anos, pequenas ou grandes contribuições urbanas são formas que ele encontrou para agradecer à cidade que o tirou dos tempos difíceis de sua adolescência no Recife e o transformou em poucos anos naquele que muitos conhecem hoje como "o artista feliz".

"Pinto sensações, sentimentos universais", explicou Romero Britto, em entrevista à AFP.
 Em seus quadros - uma mistura de cubismo e pop art, com um traço negro que contém uma explosão de cores -, não se descobre a origem da cena.

"Minha obra reflete uma celebração das coisas simples e boas da vida", explica o artista, que descobriu a pintura aos 8 anos de idade e fez dela a única atividade que dava paz e ordem a sua caótica vida.

Seus desenhos estão espalhados por toda Miami. E suas esculturas recebem os visitantes em shopping centers e parques. Mas sua obra já não tem fronteiras.

"Apesar de muita gente achar que sou apenas um artista de Miami, estou viajando o tempo todo e minha obra está no mundo todo", afirma Romero Britto.

Seus trabalhos estão em galerias de pontos tão distantes quanto Tóquio, Cingapura e São Paulo. E em museus do Brasil, Venezuela, Holanda, China e, mais recentemente, no Louvre de Paris. "Minha arte é uma ponte que me leva a muitos lugares", acrescenta.

Para comemorar a volta de Tutankamon a Londres depois de 35 anos, o governo britânico encomendou a Romero Britto a instalação de uma pirâmide de 15 metros - simulando a pirâmide de Gizé -, que foi exibida no Hyde Park em 2008.

Esse projeto o aproximou do príncipe Charles, que o convidou para um almoço com sua esposa Camila Parker Bowles e, posteriormente, para um jantar de gala no Palácio de Buckingham. "Nunca imaginei que um dia ia entrar no Buckingham Palace", comenta Romero Britto.


Em seu estúdio, no distrito de Wynwood, em Miami, Romero Britto explica que aprendeu a unir o tempo de seu hemisfério criativo ao tino de empresário para poder responder às "responsabilidades do sucesso".

Dessa maneira, e com a ajuda de inúmeras pessoas que trabalham numa espécie de estrutura de produção artística - que em 2008 somou 14 milhões de dólares em vendas -, Romero Britto responde a uma demanda global crescente por sua assinatura.

Ele vai ser o artista oficial da Copa do Mundo de futebol da África do Sul em 2010. Os retratos que pintou dos pilotos de Fórmula 1 ficarão expostos até o fim do mês em Cingapura por ocasião do Grande Prêmio neste país; e, nos próximos meses viajará ao Qatar e aos Emirados Árabes a convite dos reis desses países.

A simplicidade de sua arte multicolorida conseguiu encantar, além de monarcas, figuras como Bill Clinton, Andre Aggasi, Ronaldo, Madonna e Arnold Schwarzenegger, que sempre compram suas obras para si mesmos ou para presentear outras pessoas.

Apesar de muitos críticos considerarem seus trabalhos extremamente simples e fruto de sua falta de formação artística, Romero Britto, um autodidata, acredita que sua obra agrada porque tem ingredientes de todas as partes.

E ensaia uma definição: "Vejo minha arte como uma mistura do carnaval do Brasil, com um pouquinho da liberdade dos Estados Unidos, do espírito da Ásia, a velocidade da Rússia e algumas velhas tradições da Europa".

Fonte: AFP Paris


sábado, 17 de outubro de 2009

História do meu bairro: Várzea (Continuação)


O Recife têm muitas histórias. Entre elas, as histórias dos seus bairros. Onde guardam suas lembranças e mantêm as tradições. A cidade está repleta de pontos turísticos ainda, desconhecidos para muitos moradores. A comunidade da Várzea do Capibaribe é um exemplo real…

No passado, foi líder na economia pernambucana. A produção de cana-de-açúcar movimentava os negócios. Segundo o relatório do holandês Adriaen Verdonck em 1630, encontrava-se na Várzea, a melhor e a maior parte do açúcar do Estado. Ele acrescenta que, além da riqueza, o local era a melhor e mais bela moradia dentre os melhores lugares de Pernambuco.


Outro aspecto na história do bairro é marcado pela vanguarda que combateu os holandeses na Batalha dos Guararapes. No engenho São João, os lideres do movimento discutiam planos de revolta contra os “invasores”. Portanto, além do poderia econômico a Várzea foi local de resistência popular. O corpo do lider índio Felipe Camarão, um dos heróis das batalhas que resultou na expulsão dos holandeses, está enterrado na Igreja Matriz da Várzea.


De acordo com o Livro que cria o Estado do Brasil de 1612, a Igreja Matriz, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, abrigou a 1ª freguesia suburbana do atual município do Recife. Portanto, a Várzea é o 1º bairro da capital pernambucana. A Igreja matriz passou por reformas, entre 1868 e 1872, modificando totalmente sua arquitetura. Recentemente, o Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco, (UFPE) encontrou um cemitério de vítimas das 2 batalhas dos Montes Guararapes na sacristia da Igreja.

A Várzea é um dos bairros mais antigos do grande Recife. Com um pouco mais de 400 anos, é o 2º maior bairro da cidade e um dos mais bonitos também…Os moradores se orgulham da beleza do lugar. No século XX, a Várzea se destacou em produção e industrialização de cana-de-açúcar no Brasil. Atraía turistas de todo o mundo.

Hoje, o bairro não pode contar muito com esse auxílio, mas ainda assim, conta com diversos pontos turísticos que encantam o mapa geográfico da cidade. Entre eles, cito alguns: a Praça Pinto Damásio, a Igreja Nossa Srª do Rosário e as Instituições Brennand (Oficina Francisco Brennand e Instituto Ricardo Brennand).





O bairro também é constituído por muitos comércios, como: mercados, papelarias, livrarias, padarias, bares, restaurantes, churrascaria, pizzarias, sorveterias, farmácias, lan houses e etc.

Com tudo isso o bairro da Várzea pode ser considerado um marco eterno na história da cidade do Recife.

domingo, 11 de outubro de 2009

Temos o Dia do Astrônomo Pernambucano (02/06)



No bairro da Várzea, mas precisamente na frente do antigo Colégio São João, o Projeto Céu de Pernambuco prestou uma homenagem ao Padre Jorge Polman, no dia 02 de junho de 2009. Esse evento também estava na programação do Ano Internacional da Astronomia, visto que o Projeto Céu de Pernambuco agora também é um Nó Local do IYA.
No momento, apresentamos o dia 02 de junho, como DIA do ASTRÔNOMO PERNAMBUCANO, pois a data relembra o dia em que o Padre Jorge Polman passou a observar as estrelas a partir do telescópio de Deus (02-06-1986).

Recebemos um grande presente de um ex-Aluno do Padre Jorge: a placa que demarcava um coreto na praça da Várzea como Espaço Jorge Polman. Após uma reforma na praça, a placa havia sido retirada e estava no depósito da Prefeitura do Recife. Agora essa placa está com o Projeto Céu de Pernambuco esperando o momento de ser novamente afixada, agora num local que terá a atenção das oculares do Projeto Céu de Pernambuco, na PRAÇA JORGE POLMAN - A Praça da Astronomia, em frente ao Colégio São João na Várzea.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Agosto - o mês do maluco beleza

Quando velhos sucessos de Raul Seixas começaram a tocar repetidamente nas rádios na tarde daquela segunda-feira, 21 de agosto de 1989, não foram poucos os que se surpreenderam. Com Raul ausente das paradas desde Cowboy fora da lei, 2 anos antes, escutar antigos hits como Ouro de tolo, Gita, Metamorfose ambulante e Maluco beleza no meio da programação regular - que ia da revelação Marisa Monte a Chitãozinho e Xororó, passando por Legião Urbana - deveria significar alguma coisa. E a notícia não demorou a chegar. Se para muitos foi uma surpresa, para os que acompanhavam o artista de perto era mais que esperado. Suas últimas aparições públicas causavam um misto de choque e comoção. Mesmo com a saúde bastante debilitada, a lenda do rock brasileiro arrastava multidões em seus shows. Apoiado pelo amigo e discípulo Marcelo Nova, acabara de realizar uma extensa e bem-sucedida excursão por todo o país. A derradeira apresentação foi em Brasília, poucos dias antes de ser encontrado morto no modesto apartamento onde morava sozinho em São Paulo. A semana que se seguiu ao show no Planalto Central seria de descanso e de preparação para as atividades de lançamento do disco gravado nos intervalos das apresentações pelo Brasil. A panela do diabo, batizado pela dupla por inspiração de evangélicos que distribuíam panfletos comparando Raul ao Belzebu na porta de um show no interior de São Paulo, era o resultado da parceria que uniu os 2 irrequietos baianos no momento em que o País vivia uma de suas mais importantes transições.
As primeiras apresentações conjuntas de Raul e Marcelo foram na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, a apenas 2 semanas da promulgação da Constituição de 1988. Mais que um marco histórico, a nova Carta tinha um efeito prático para o roqueiro. Após quase 20 anos de carreira, pela 1ª vez ele estaria legalmente livre para dizer o que quisesse, como pregava a sua constituição, o manifesto da Sociedade Alternativa. Junto com a volta das garantias coletivas e individuais, a Constituição Cidadã - como Ulysses Guimarães a batizara - acabava de vez a censura às obras artísticas, mantida no governo civil de Sarney mesmo após a saída dos militares do poder e que ainda naquele 1988 havia proibido a execução pública de Não Quero mais andar na contramão, do fraco disco Pedra do Gênesis que antecedeu o encontro de Raul com Marcelo. Se os novos tempos traziam liberdade total de expressão, o que faltava agora a Raul era motivação. Diabético, com uma pancreatite crônica decorrente do alcoolismo e recém-separado da última das 5 mulheres com quem foi casado, estava depressivo e amargurado. O sarcasmo, a ironia e a índole zombeteira e verborrágica que por anos marcaram suas aparições e músicas deram lugar a uma figura calada.
O convite do ex-líder do Camisa de Vênus para os shows - junto a um necessário acompanhamento médico - deu uma injeção de ânimo em Raul. Já na chegada a Salvador para as primeiras apresentações, a dupla chegou zombando de Gilberto Gil, que dava na capital baiana os primeiros passos da carreira política que culminaria anos depois com o cargo de ministro da Cultura no governo Lula. O atual presidente, na época disputando a sua 1ª eleição presidencial, também foi alvo da dupla. Com a inédita campanha eleitoral para a escolha do novo presidente a pleno vapor em 1989, o magro barbudo e Marcelo declaravam que não acreditavam em alguém que não ria, referindo-se à sisudez do petista, considerada um dos principais fatores de rejeição a ele.
Apesar do calor da disputa eleitoral enquanto corria a turnê, a sucessão política especificamente não serviu de inspiração para as composições da nova dupla. Mas outros temas que estavam nas páginas de jornais e nos noticiários da TV não passaram despercebidos. Em meio às celebrações ao "rockão antigo" e canções autobiográficas, a panela preparada por Raul e Marcelo misturava Salman Rushdie, Sting e cacique Raoni em Best seller e ainda davam uma espinafrada em Edir Macedo na divertida Pastor João e a Igreja Invisível: "Pois eu transformo água em vinho, chão em céu, pão em pedra, cuspe em mel/ Para mim não existe impossível/ pastor João e a Igreja Invisível". 20 depois, com os mesmos personagens ainda protagonizando os noticiários não deixa de ser premonitória a sentença da já citada Best seller, que dizia que no final bandido casa com o mocinho. Mas os pontos altos eram mesmo as que olhavam para dentro, para trás, ou para o futuro, com a mistura de balanço de vida com testamento de Banquete de lixo: "Meu amigo Marceleza/ já me disse com certeza/ não sou nenhuma ficção/ e assim torto de verdade/ com amor e com maldade/ um abraço e até outra vez".Raul não viveria para ver o relativo sucesso do disco. Morreu aos 44 anos no dia em que o LP chegava às lojas. Também não viu o resultado daquelas eleições, a iminente queda do Muro de Berlim, a chegada da MTV, os anos 90, a internet... que talvez poderão ser cantadas por alguém daqui a 10 mil anos.
Para conferir
O Multishow (TV paga) exibe hoje, às 21h30, o documentário 20 anos sem Raul Seixas, com entrevistas, making of de shows e clipes - A MTV apresenta hoje, às 19h45, o programa Rockstória Raul Seixas- Amanhã, às 23h, o MTV + exibe o especial 20 anos sem Raul.
CD 20 anos sem Raul Seixas
Álbum que traz, além de takes alternativos, sucessos em inglês e ainda uma faixa inédita que foi censurada em 1974: Gospel. Gravadora: Microservice, R$ 24
DVD 20 anos sem Raul Seixas
O DVD traz imagens pessoais de Raul com amigos, além de entrevistas e trechos de shows, inclusive um dos últimos shows de Raul, ao lado de Marcelo Nova (ex-Camisa de Vênus), antes de sua morte. Traz ainda o videoclipe de Morning Train. Gravadora: Microservice, R$ 45
Livro Raul Seixas - Metamorfose ambulante
Escrito por Mário Lucena, Laura Kohan e Igor Zinza e mostra um Raul que os fãs não conheceram. Seu fascínio por filosofia e a inspiração para músicas que revolucionaram o rock nacional, e a criação do "Maluco Beleza", reverenciado por antigose novos fãs. Editora: B&A, R$ 30 (nas bancas de jornal)